quinta-feira, janeiro 26, 2006

(continuação)


(pequena menção de desculpas ao atraso. virou normal mas mesmo assim ainda me sinto mal de "abandonar" o blog. agradeço a paciência!)

Acordamos. A impressão de que vários pequenos demônios estavam mastigando cada músculo do meu corpo era forte, e de lembrar que eu teria uma sessão mais forte que a de ontem fazia eles colocarem mais vontade em cada mordida. Nesta hora o pequeno Jacó da minha mente toma voz e fala "Já pagou, agora vai ter que fazer". É, vamo que vamo. Ao contrario do dia anterior, o qual tivemos um café da manhã estilo ocidental (bacon, ovos fritos, pão...), hoje foi um à-la-nihon, com peixe, arroz papa, algas e tudo que se tem direito. Fome ou não, tava bom (tá que eu não encarei a ova de salmão, que essa até mesmo o Jacó bundou), colocamos as botas e enquanto estávamos pegando os boards escutamos o ônibus indo embora. Beleza, ganhamos 15min até o próximo pra ficar brincando nas paredes de neve que facilmente ultrapassavam minha altura. depois de se acostumar mais uma vez com a neve, chegou o ônibus. Neste momento os demoniozinhos, creio eu, resolveram dar uma folga e se esqueceram de voltar.


Chegamos na gôndola. Já não nevava que nem ontem, mas tinha um amistoso aviso de "Aviso de Avalanche" na porta. "FODA-SE", disse o Jacó mais uma vez, se bem que eu não estava mais me preocupando muito com dor, tão pouco com cair e me estabocar. A sensação de deslizar de snowboard é muito boa, ainda mais agora que nós conseguíamos fazer uma boa parte do percurso sem cair. Era apenas o segundo dia, mas já não podia imaginar o amanhã sem pegar o ônibus de manhã e seguir pra montanha. Vamos aproveitar o tempo que temos, e se vier neve de cima da montanha, que venha!


As descidas seguintes foram bem bacanas, zoamos pacas, ficamos fazendo graça, arriscando uma hora ou outra um frontside, e aproveitando bem a friaca da montanha. Almoçamos mais uma vez no restaurante que só dá gringo. Comida atrai os demoniozinhos, creio eu. Tiramos 45min de folga depois do almoço para dar uma dormida no lobby do hotel e fazer alongamentos. E como comida atrai, neve espanta.


Voltamos no gás, e desta vez estávamos decididos a esquiar até ficar de noite, experimentar a sensação do "naitaa" (algo como "nighter", coisa de japonês). Descemos mais algumas séries dos percursos até agora conhecidos, quando resolvemos inovar em um que era um tanto grande, e dito de dificuldade fácil. Meu óculos só embaçava, começou a nevar leve, mas seguimos igual. Não sei como são classificadas as dificuldades, mas depois de ir lá creio que "quanto menor a inclinação, é dito de nível mais fácil". Agora, EM QUE PLANETA UMA PISTA PLANA É FÁCIL? Sério, inclinação de menos de 10º ninguém merece, nós já somos iniciantes, fazer um snowboard manter a energia num plano é complicado, volta e meia nós caíamos por falta de velocidade, e para voltar a deslizar era necessário desprender um dos pés, dar várias remadas, rezar um Pai Nosso e dez Ave Marias e esperar que algo parecido com uma descida estivesse depois da curva. E esta descida era curta o suficiente para você pegar um pouco de velocidade, ter que parar pra prender o pé E NÃO TER MAIS DESCIDA. Sério, lá foi tenso, demoramos pra sair do dito "Percurso Holiday". Lógico, enquanto descíamos, os snowboarders de alto nível nos passavam com facildade, só pra piorar nossa situação.

Óculos embaçado, nevando e escurecendo, chegamos mais uma vez à base da gôndola. "Pinico, vamos descansar um pouco" foi a idéia geral. Foi divertido na cabana, tinha uma galera lá, nego se amarrou nos Wallys gringos. Ao sair de lá o Colômbia bundou e foi pro hotel que almoçamos, eu e o Diogo resolvemos seguir o plano do "naitaa".


Mais uma vez ao topo, parada pra foto no termômetro e seguir novamente aos percursos nível médio (Na parte de baixo do termômetro está escrito 白い恋人, shiroi coibito, ou namorada branca). Como quase não havia nevado, a neve tava já um pouco dura, tava difícil de manter o controle, mas fomos mesmo assim. Nesta hora, com aquele espírito de "tamo no final, e já tô com um pouco de moral", finalmente comecei a esboçar umas séries de frontside/backside/frontside/backside, deixar o board de frente, sentir o "rush" de adrenalina quando seu board pega mais de 50km/h e você vê a descida forte chegando, tem que freiar e o backside não quer entrar, tem que ser de frontside mesmo (que eu não havia dominado ainda), freiar e conseguir estabilizar, passar a descida forte, e começar tudo de novo. Claro que muitas vezes na hora de entrar o frontside pra freiar eu errava, ou errava o balanço do backside e capotava, mas eu já não sentia mais nada. Quer dizer, eu achava que não sentia mais nada, até que eu consegui uma queda forte de bunda, acertando bem o cóxi (ou cóx, ou como quer que se escreva o nome do bendito ossinho do final da coluna). "AI MEU C*!" foi a frase que fez o Diogo chegar com aquela expressão mista de riso e preocupação até onde eu havia caído. "Pelo menos não é cimento" foi o que veio na minha cabeça, subi no board e fechei a descida. O Colômbia resolveu voltar à "Slow Life" enquanto descemos mais uma vez. Depois eu que bundei, estava cansado o suficiente para não confiar mais em mim, uma vez que eu ainda estava inteiro, dolorido mas inteiro, e não queria voltar para Osaka com algum membro engessado. O Diogo desceu mais uma vez, enquanto eu me dediquei a ficar no hotel desta vez, esperando ele. Acabando a descida, retornamos à Pousada, comemos e resolvemos dar um rolé de noite na cidade para agitar alguma coisa a fim de despedida. Morremos numa espécie de lanchonete/bar feita de toras de madeira (lembra a Mormaii do Pontão, só que o andar de cima). Batemos um milkshake enquanto víamos uns vídeos de snowboard e nossas forças indo embora. Já batia aquela saudade da montanha, mas foi bom. Na volta passamos fazendo graça, curtindo os -15ºC, a neve e ainda aproveitamos pra dar a clássica "mijada na neve". Chegando na pousada, tivemos que esperar mais cerca de uma hora pra poder tomar banho, e como eu sou sortudo, perdi no janken (pedra-papel-tesoura, o original) e sobrei de último. Depois de tudo, deixar as malas semi-prontas para poder sair às 7 e meia da matina. Finalmente, dormimos. (próximo acaba...)

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